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Contra o fascismo e por um novo esperançar de lutas

Luiz Eduardo Neves dos Santos

Geógrafo, professor da UFMA e membro do Movimento de Defesa da Ilha (MDI).

Em 3 de outubro de 2022 escrevi um texto sobre o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais daquele ano, momento em que Jair Bolsonaro, então presidente, havia conseguido pouco mais de 51 milhões de votos, atrás de Lula, que teve mais de 57 milhões. O número alcançado por Bolsonaro, hoje preso por tentativa de golpe de Estado, me fez recorrer às ideias do filósofo italiano Franco Berardi (2020) e o seu conceito de Semiocapitalismo, o ponto máximo de abstração do capital que transforma radicalmente a esfera da linguagem e da comunicação, já que, oriunda da inteligência artificial de autômatos vai influenciar muito consistentemente as relações sociais ao escravizar indivíduos no mundo virtual, tornando-os submissos ao poder da financeirização.


Segundo a tese de Berardi (2020), a linguagem virtual potencializa a abstração e provoca efeitos nocivos na mentalidade dos grupos, qual seja uma gama de monstros imaginários a serem combatidos. Por isso, se observa sempre o retorno do alastramento de teorias conspiratórias, o fantasma comunista, o medo da perseguição aos cristãos e seus ideais de família, a deturpação da ideia de pátria e liberdade e o ódio às pautas de inclusão. De acordo com Berardi (2020), o excesso de automação e controle da vida social através das redes se transforma no que ele denomina de neurototalitarismo, uma espécie de racionalidade do digital, que potencializa ódios, racismos, caos político e mental no cotidiano.

Depois do resultado de 4 de outubro de 2026, no qual a extrema-direita se saiu vencedora, ao preencher a maioria das cadeiras no parlamento e ao colocar Flávio Bolsonaro no 2º turno com pouco mais de 56 milhões de votos, a frente de Lula, depreende-se uma cristalização da linguagem neurototalitária, instaurada pelo Capital, entendido por Marx (2024) como relações sociais entre sujeitos, mediada por coisas, mas também por processos de subjetivação que aparentemente se apresentam de forma irracional. São mulheres eleitas que abominam pautas feministas, jovens influencers digitais eleitos sem um programa, que alimentam suas redes sociais com ataques às pessoas do campo progressista, gente cínica eleita usando o nome de Deus e de um patriotismo fajuto, outras alçadas aos diversos parlamentos com discurso armamentista e muitas outras com falas hipócritas de combate à corrupção.

Difícil fazer um diagnóstico preciso sobre este fenômeno, mas é em 2018 que o Brasil opta por um experimento de vertente fascista pós-redemocratização com a eleição de Jair Bolsonaro e a inserção de seu grupo político no poder. Todos alinhados a pautas radicalizadas no campo do fundamentalismo religioso cristão, na defesa irrestrita do agronegócio e do garimpo ilegal, da política antidireitos humanos, pró-privatizações, favorável à austeridade econômica e de submissão ao imperialismo estadunidense. Tal discurso é fértil para a criação das condições de uma expansão fascista, ainda mais em um contexto de crise do Capital, uma crise civilizatória sem precedentes, de cunho violento, com vertentes conectadas, como já escreveu Vladimir Safatle (2026), ou seja, crise política, econômica, ambiental, social, psíquica, ética e moral.

O êxito da extrema direita fascista nestas eleições nos aponta algumas questões que precisam ser ditas. De fato, este campo político é uma força real, que trabalha muito bem no campo da linguagem/comunicação e toca os corações e mentes de uma massa que não é uniforme, destaco 3 grupos principais: 1. Uma classe média reacionária e escolarizada, nos moldes que Marilena Chauí (2026), Jessé Souza (2018) e Milton Santos (1987; 2000) a definiram, grosso modo, bajuladora dos capitalistas, que vive a ilusão dos modos de vida burgueses, racista e sem consciência cidadã. 2. Uma parte composta por grupos de trabalhadores do precariado e também de classes populares com perfil de menor escolaridade e renda, com rebatimentos de caráter mais conservador e cristão. 3. E os integrantes do topo da pirâmide social, como rentistas, banqueiros, mega varejistas, industriais, grandes ruralistas e os donos da mídia corporativa.

Os posicionamentos da extrema direita fascista no Brasil são claros, cortes orçamentários nos investimentos públicos em Educação, Saúde, Assistência Social, Habitação, Cultura, Ciência e Tecnologia, Infraestrutura, dentre outras áreas. São contrários ao fim da escala 6×1, como também às políticas de igualdade salarial e à demarcação de terras indígenas e quilombolas.  Desejam implementar políticas armamentistas, de afrouxamento das políticas de proteção socioambiental, com menos fiscalização dos órgãos públicos, a expansão dos agrotóxicos e da grilagem de terras, do esvaziamento ou mesmo extinção dos conselhos com participação popular, da mesma forma ainda pretendem politizar pautas morais e de cunho religioso cristão. Sob o manto da ideia de liberdade, pretendem incentivar a meritocracia, a precarização do trabalho disfarçada de empreendedorismo, com consequências nas relações de trabalho (empregado negocia com patrão e menos direitos), nas políticas de vacinação e no porte de armas de fogo.

No campo da política internacional a situação também é alarmente, a família Bolsonaro possui ligações explícitas com o trumpismo, não esconde de ninguém que quer entregar as riquezas minerais brasileiras aos Estados Unidos. Recordo o flagrante da conversa entre Jair Bolsonaro e o ex-vice presidente democrata Al Gore em 2019 no Fórum Econômico Mundial em Davos, no qual o ex-presidente, perguntado sobre a Amazônia, dispara: “a Amazônia não pode ser esquecida, temos muitas riquezas e gostaria muito de explorá-la junto com os Estados Unidos”. Flávio Bolsonaro já deu declarações de que deseja fazer um acordo de livre-comércio com os EUA, o que na prática é nocivo para o nosso país, já que Trump é um líder declaradamente protecionista, mas ao que tudo indica, terá carta branca para explorar as riquezas brasileiras, como a Amazônia, as terras raras, as gigantescas reservas de petróleo da margem equatorial e a estratégica base aeroespacial de Alcântara.

Mas o porquê da força da extrema direita nas urnas desde 2018? Eu aponto uma hipótese central que se ramifica em diversos pontos, qual seja, a ocupação ostensiva das arenas digitais e virtuais, com discurso simples, claro e desavergonhado sobre temáticas que atingem, mexem e interferem na formação de opinião das massas. Isto inclui questões conhecidas como “politicamente incorretas”, da invenção de termos que se alastraram velozmente como fogo em palha seca na vida cotidiana desses grupos, a exemplo do “marxismo cultural”, da “ideologia de gênero”, do “globalismo”, do “identitarismo”, da “globolixo”, do “racismo reverso”, da “cristofobia”, entre outros. Expressões que se encheram de significado e contribuem para que tais grupos disseminem seus ressentimentos, – que opera, como escreveu Anselm Jappe como uma “das mais poderosas e nocivas emoções humanas” (2021, p. 272) – preconceitos e frustrações em direção a grupos que não se encaixam em seus padrões morais e comportamentais, como a família tradicional, a branquitude, a heteronormatividade e a religião cristã.

É preciso também mencionar o papel da dita Esquerda neste momento, representada pelo Lulismo, sobretudo no que diz respeito à perda de eleitores para o campo da extrema direita. É fato que este campo progressista perdeu o elo com as lutas populares nas últimas décadas, o Partido dos Trabalhadores se burocratizou, se aliou às oligarquias regionais, não realiza mais formação política de base, e apesar dos inegáveis e relevantes avanços sociais e econômicos que o Brasil vivenciou em boa parte do século XXI, Lula e o PT não realizaram reformas de base estruturantes no país (Singer, 2012), em nome da uma “governabilidade” ou como na expressão de Sérgio Abranches (2026), de um “presidencialismo de coalizão”. Foram gestões de conciliação de classes, com alianças políticas no mínimo questionáveis em que os privilégios dos mais abastados não foram atingidos, na medida em que as populações mais pauperizadas e de trabalhadores tiveram um quinhão bem menor do fundo público via programas e direitos sociais, acesso ao ensino superior e ao crédito.

Pelo exposto, mesmo admitindo as contradições do Lulismo, é necessário defender a reeleição de Lula, primeiro porque Flávio Bolsonaro representa um projeto que está posto: é colonialista, isto é, racista e entreguista por definição, como na canção de Raul, “tá tudo pronto aqui é só vim pegar”. Em segundo lugar, é militarista, sendo Flávio produto de uma tradição familiar golpista e autoritária, que não possui nenhum apreço pela democracia e pelas instituições. E por último, é financista, subalterno aos interesses do grande Capital rentista e especulador, por isso, fomentador de desigualdades sociais, econômicas, e territoriais.

A reeleição de Lula nos mostra uma porta aberta para a estabilidade, a inflação controlada, os baixos índices de desemprego e a manutenção de investimentos importantes –mesmo com um parlamento que mais parece uma casa mal assombrada – nas áreas educacionais (Pé-de-Meia, ProUni, SISU, Criança Alfabetizada, etc.), de Saúde (Mais Médicos, Farmácia popular, Brasil Sorridente, Movimento Nacional pela Vacinação, SAMU, UPAs, etc.), de Infraestrutura e Habitação (Novo PAC, Minha Casa, Minha Vida, etc.), além dos programas sociais (Bolsa Família, Auxílio Gás, FIES Social, etc.).

No entanto, eleger Lula mais uma vez não significa ficar como estamos, afinal “a gente não quer só comida”, queremos juros menores e a diminuição da carga tributária, reforma previdenciária justa, taxação de grandes fortunas, combate ostensivo ao crime organizado e aos grandes sonegadores de impostos, revisão e diminuição de renúncias fiscais, efetivação de auditoria cidadã da dívida, ou seja, mais verbas para o povo brasileiro, com mais investimentos em Educação, Saúde e Desenvolvimento Social, com recomposição orçamentária para as instituições públicas federais de ensino, fortalecimento e melhor gestão do SUS, ampliação de leitos e equipamentos hospitalares, combate à fome e ao racismo, acesso gratuito ao lazer e à cultura, políticas públicas de proteção às mulheres, redução das emissões de gases causadores do aquecimento global, criação de novas unidades de conservação, diminuição dos desmatamentos e da degradação socioambiental na Amazônia e no Cerrado, reformas agrária e urbana, além da ampliação da demarcação de terras indígenas e quilombolas.

Pode parecer contraditório, mas o resultado deste 1º turno nas eleições presidenciais nos aponta para um horizonte promissor, já que diversos grupos no Brasil estão se mobilizando numa corrente de apoio a Lula e contra o fascismo. Um despertar de consciência coletiva para ação que necessita ser ampliado, que venha para ficar, independente do resultado. É preciso ansiar pelo pertencimento, uma forma diferente de coabitar o político, como nos ensina Judith Butler e Athena Athanasiou (2024, p. 196), no sentido de viver e agir em comum, a partir do compartilhamento de vulnerabilidades e experiências nos espaços públicos. Precisamos imaginar outros mundos, o que é difícil para populações jovens, que não vêem mais o futuro como promessa, mas como uma ameaça. 

Herbert Marcuse (2015) nos convida à imaginação política como antídoto a uma unidimensionalidade anestesiante e acrítica, através de uma força subversiva e transformadora de contestação ativa ao sistema capitalista. A vida contemporânea, baseada apenas em valores ligados à acumulação, no dinheiro e no fetiche da mercadoria como padrão de felicidade, acaba por adoecer psiquicamente populações inteiras que, ao vender sua força de trabalho, se encontram atoladas na lama das pressões estruturais por mais produtivismo, desempenho e precarização. O estímulo à competição exacerbada e ao consumismo no estágio atual do capitalismo é bandeira da extrema direita, sobretudo quando ela fala em liberdade individual e meritocracia, expressões que são armadilhas discursivas que camuflam o desejo para efetivação de políticas draconianas.

Nossa tarefa histórica é lutar de forma intransigente contra o fascismo e seus projetos de poder ligados à pulsão de morte, aos impulsos destrutivos e à aniquilação do Outro. A luta coletiva para reeleger Lula nem de longe pode se restringir a uma agenda para os próximos 4 anos, mas como possibilidade para uma inflexão permanente rumo a novas formas do fazer político, de radicalização das pautas de interesse social e popular, que valorize a diversidade brasileira, reforce e amplie os laços e nós de solidariedade, estimule a copresença, a consciência cidadã, a empatia, os diálogos, a ética e o esperançar dos sonhos possíveis, da transformação efetiva, como na lição de Paulo Freire.

Luiz Eduardo é Geógrafo, Professor Associado no curso de graduação em Ciências Humanas/Geografia (CCPi) e do Programa de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade (PGCult) da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Presidente da APRUMA (Gestão 2025-2027) e Coordenador regional dp Observatório das Metrópoles (Núcleo São Luís/MA).

Referências:

ABRANCHES, Sérgio. Presidencialismo de Coalizão: raízes e evolução do modelo político brasileiro. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2026.

BERARDI, Franco. Asfixia: capitalismo financeiro e a insurreição da linguagem. São Paulo: Ubu Editora, 2020.

BUTLER, Judith; ATHANASIOU, Athena. Despossessão: o performativo na política. São Paulo: Editora Unesp, 2024.

CHAUÍ, Marilena. Democracia e Populismo: a nova classe trabalhadora. São Paulo: Cortez Editora, 2026.

JAPPE, Anselm. A Sociedade Autofágica: capitalismo, desmesura e autodestruição. São Paulo: Editora Elefante, 2021. 

MAARCUSE, Herbert. O homem unidimensional. São Paulo: Edipro, 2015.

MARX, Karl. O Capital: crítica da economia política [livro 1]. 3. ed. São Paulo: Boitempo, 2020. 

SAFATLE, Vladimir. A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais. São Paulo: Ubu Editora, 2026.

SANTOS, Milton. O Espaço do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987.

SANTOS, Milton. Por uma outra Globalização: do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro: Record, 2000.

SINGER, André. Os sentidos do Lulismo. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

SOUZA, Jessé. A classe média no espelho. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.







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Luiz Eduardo Neves dos Santos

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