Moradores do Quilombo Cancela registraram a passagem de um avião realizando pulverização de agrotóxicos nas proximidades das comunidades. (Foto: Quilombo Cancela) A denúncia feita por lideranças do Território Quilombola Guarimã, em São Benedito do Rio Preto, sobre ameaças e pressões provocadas pelo avanço do agronegócio ganhou um novo capítulo nesta semana. Na tarde de 3 de março, moradores do Quilombo Cancela registraram em vídeo a passagem de um avião realizando pulverização aérea com agrotóxicos nas proximidades das comunidades.
Segundo relatos enviados à Agência Tambor, casas e áreas de cultivo estariam sendo atingidas pela dispersão do produto químico. O episódio reacende o alerta sobre os riscos à saúde e à segurança das famílias que vivem no território.
A situação já havia sido denunciada dias antes por lideranças quilombolas durante entrevista ao programa Dedo de Prosa. Na ocasião, o secretário-geral da Federação dos Quilombolas Rurais do Maranhão, Chico Carlos, afirmou que a pulverização aérea é uma das práticas que vêm agravando os conflitos na região.
De acordo com ele, o avanço da fronteira agrícola no Maranhão — impulsionado pelo projeto Matopiba — tem provocado desmatamento dentro do território e impactos diretos sobre os recursos naturais utilizados pelas comunidades.
“Há mais de dez anos ocorre desmatamento dentro da área. Além disso, a pulverização aérea tem contaminado rios, igarapés e até pessoas que transitam pelas comunidades”, denunciou.
Para os moradores, quando o céu se transforma em fonte de risco, não se trata apenas de uma disputa por terra, mas de uma ameaça direta à vida. A exposição aos agrotóxicos pode provocar intoxicações, doenças respiratórias e outros impactos à saúde, especialmente em comunidades que dependem da agricultura familiar, da água dos igarapés e da preservação da floresta para sobreviver.
O Território Guarimã reúne mais de 60 comunidades quilombolas e aguarda há anos a conclusão do processo de titulação coletiva. Certificada pela Fundação Cultural Palmares, a área enfrenta conflitos fundiários, denúncias de desmatamento e ameaças a lideranças locais.
Diante do agravamento da situação, organizações quilombolas criaram em fevereiro uma comissão para acompanhar o processo de regularização do território e cobrar providências dos órgãos responsáveis. A iniciativa busca pressionar instituições como o Incra, além de acionar órgãos de fiscalização ambiental e segurança pública.
Para as lideranças, a ausência da titulação definitiva tem contribuído para ampliar as tensões no campo e deixado as comunidades mais vulneráveis a práticas que colocam em risco o território e a própria sobrevivência das famílias.
Agora, com o novo registro de pulverização aérea próximo às casas do Quilombo Cancela, os moradores pedem investigação e providências urgentes das autoridades.
Quando o céu vira ameaça, afirmam as comunidades, o que está em jogo é mais do que a disputa por terra: é o direito de viver com segurança no próprio território.