Julgamento do assassinato de Carol Campelo está marcado para o dia 5 de novembro. Imagem: Acervo rede social O julgamento do assassinato de Carol Campelo, jovem lésbica de 21 anos, está marcado para o dia 5 de novembro deste ano, em Governador Nunes Freire (MA). O caso, que ocorreu em dezembro de 2023, em Maranhãozinho, é considerado um crime de ódio — um lesbocídio — e mobiliza movimentos sociais em todo o país pela garantia de justiça e pelo reconhecimento dos direitos das mulheres lésbicas.
A mobilização vai além da condenação do acusado. Grupos organizados e coletivos autônomos reivindicam que o crime seja enquadrado juridicamente como lesbocídio e que seja implementada a Lei Luana Barbosa, que busca dar visibilidade e tipificação legal a esse tipo de violência.

“Se não fosse o movimento feito por tantas pessoas, o caso da minha filha já teria caído no esquecimento. Foi graças à mobilização que hoje temos uma data para o julgamento”, afirmou Carmelita da Silva, mãe de Carol, em entrevista ao programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.
Carmelita, durante o bate-papo, dividiu o microfone e esteve em companhia Marcos Melo, gerente de campanha da ONG All Out, e Ana Maria, Integrante Coletiva Lesbo Amazônidas, cobrando mudanças e falando sobre a violência.
Veja a entrevista do trio na íntegra ao final desta matéria.
A pressão popular teve início logo após o crime. Manifestações nacionais e internacionais, protestos em várias cidades e um abaixo-assinado digital organizado pela All Out reuniram mais de 122 mil assinaturas. “Esse apoio furou a bolha do Maranhão e levou a luta por justiça a outros países”, destacou Marcos Melo, gerente de campanhas da entidade.
Apesar da comoção, o processo sofreu atrasos e chegou a ser adiado. Para Carmelita, o silêncio das autoridades locais reforça a negligência diante de crimes de ódio. “Nenhum representante da minha cidade se manifestou. A mobilização veio de fora, das meninas, dos movimentos, e é isso que mantém a memória da Carol viva”, lamentou.
A Coletiva Lesbo Amazônidas, que acompanha o caso, aponta a invisibilidade da violência contra lésbicas como um dos principais entraves. “Muitos assassinatos são registrados como homicídio comum ou feminicídio, sem reconhecer a motivação lesbofóbica. Isso dificulta a produção de dados e a construção de políticas públicas específicas”, explicou Ana Maria, integrante do coletivo.

O último levantamento oficial sobre lesbocídios no Brasil é de 2017, o que reforça a ausência de informações atualizadas. A luta dos movimentos é para que estados e municípios adotem legislações próprias que obriguem a tipificação desses crimes. “A lei precisa dizer quem era essa mulher, qual a motivação do crime. Sem isso, não existe justiça nem memória”, completou Ana Maria.
Na Assembleia Legislativa do Maranhão, movimentos sociais protocolaram um pedido de diálogo para implementar a Lei Luana Barbosa, que já vigora em cidades como Belém e Florianópolis. Até agora, não houve retorno. “Estamos dando passos de formiguinha, mas é um processo que precisa começar. Cada reconhecimento é uma vitória”, avaliou Ana.

O caso de Carol também expõe a realidade da criminalização da LGBTfobia no Brasil, reconhecida pelo STF em 2019, mas ainda distante da prática cotidiana. “No papel, o crime existe. Na realidade, não há padronização nem preparo nas delegacias para registrar casos de LGBTfobia”, criticou Marcos Melo.
Enquanto aguardam o julgamento, familiares e militantes reforçam que a luta vai além de Carol. “Não é só por ela, é por todas nós, lésbicas, que ainda sofremos preconceito e violência. Queremos justiça e o direito de viver com dignidade”, disse Carmelita, emocionada.
📌 Assista a entrevista completa exibida no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor.