A mobilização de 2026 acontece no Largo do Carmo, no Centro, próximo à Feirinha São Luís, às 9h. (Imagem: Luciana Oliveira) Em meio ao avanço da violência de gênero e à disseminação de discursos misóginos nas redes sociais, os números mais recentes revelam um cenário alarmante para as mulheres no Brasil, com estados como o Maranhão entre os que mais enfrentam os impactos dessa realidade.
A misoginia não é apenas discurso: é uma realidade sustentada por dados. E o 8 de março, Dia Internacional da Mulher, chega assim, pedindo reflexão e buscando o início de uma mudança que ainda não começou.
E, para tanto, movimentos de mulheres, organizações sociais, partidos políticos e sindicatos realizam neste domingo (8), em São Luís, uma mobilização unificada em defesa da vida das mulheres, da democracia, da soberania e pelo fim da escala de trabalho 6×1.
O ato chama atenção para o aumento da violência de gênero e para a necessidade de fortalecer políticas públicas de proteção e igualdade. A mobilização acontece no Largo do Carmo, no Centro, próximo à Feirinha São Luís, às 9h.
A cada 4 minutos uma violência, a cada 6 horas uma morte
O Brasil registrou em 2025 o maior número de feminicídios da série histórica, que se impõe a cada ano: 1.470 mulheres foram assassinadas por razões de gênero entre janeiro e dezembro, segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Os números aumentaram e superam o ano anterior, que já registrava uma dolorosa realidade.
Já os dados mais recentes consolidados sobre violência contra a mulher, referentes a 2024, apontam que cerca de 3,7 milhões de brasileiras sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar, de acordo com a Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, do Instituto DataSenado.
No Maranhão, os indicadores também reforçam o alerta. Em 2025, 51 mulheres foram vítimas de feminicídio no estado. No ano anterior, dados do Ligue 180 registraram 17.832 atendimentos relacionados à violência contra mulheres e 2.833 denúncias formais, número que representou aumento de 49,4% em relação a 2023. Pesquisadores ainda alertam para a possível subnotificação desses dados.
Se luta para que se viva
“Lutar pela vida das mulheres é garantir que possamos existir com direitos, com autonomia e com qualidade de vida dentro da sociedade”, afirmou a integrante do Fórum Maranhense de Mulheres, Neuzeli de Almeida Pinto.
Neuzeli esteve em companhia de Silvia Leite, assistente social, e Rielda Alves, vinculada ao PSOL, no programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, que debateu a importância do 8 de março e os desafios enfrentados pelas mulheres no Maranhão.
[Assista na íntegra à entrevista ao final desta matéria.]
Segundo Neuzeli, o crescimento da violência contra mulheres revela um cenário preocupante e estrutural. Para ela, feminicídios, estupros e casos recorrentes de violência doméstica demonstram que o controle sobre o corpo e a autonomia das mulheres ainda está presente em diversas esferas da sociedade.
“A violência nos cala, nos silencia e nos mata. Ela funciona como mecanismo de manutenção de um sistema que tenta nos manter à margem”, afirmou a militante, ao defender que o enfrentamento ao problema precisa envolver políticas públicas, educação e mobilização social.
A militante Rielda Alves destacou que o 8 de março tem origem nas lutas históricas das mulheres trabalhadoras por melhores condições de vida e trabalho. Para ela, as mobilizações atuais mantêm esse legado ao conectar as reivindicações históricas com problemas contemporâneos.
“Quando as mulheres se organizam e vão às ruas, elas conseguem mover estruturas e transformar a realidade”, afirmou. Segundo Rielda, as manifestações também dialogam com temas como guerras, precarização do trabalho, desigualdade social e aumento da violência contra mulheres.
A minoria que representa a maior parte
Ela também ressaltou que as mulheres são diretamente impactadas por crises sociais e econômicas. “As mulheres representam mais da metade da população mundial e são as mais afetadas pela precarização do trabalho e pelas políticas de austeridade”, disse. Entre as pautas levantadas na mobilização deste ano estão o combate ao feminicídio e o fim da escala de trabalho 6×1.
A assistente social Silvia Leite, que atua no atendimento a vítimas de violência, reforçou a gravidade da situação a partir da experiência profissional. Segundo ela, os casos de violência doméstica continuam sendo uma realidade frequente nos serviços de atendimento às mulheres.
“Todos os dias atendemos mulheres vítimas de violência doméstica. Muitas têm medo de denunciar quem as agride”, relatou. Para Silvia, é fundamental ampliar a rede de proteção e fortalecer políticas públicas como a Patrulha Maria da Penha, garantindo que mulheres em situação de risco tenham acompanhamento efetivo do Estado.
Ela destacou ainda que a violência ocorre em municípios de diferentes portes e que muitas vítimas já possuíam medidas protetivas. “Não podemos olhar apenas para as mulheres que morreram, mas também para aquelas que sobreviveram e precisam de proteção do Estado”, afirmou.
As entrevistadas também defenderam a ampliação de investimentos em políticas públicas, educação de gênero e participação da sociedade civil na formulação de estratégias de enfrentamento à violência. Para elas, a mobilização do 8 de março tem o objetivo de pressionar governos e instituições a assumirem responsabilidades na garantia de direitos.
A mobilização em São Luís deve reunir diferentes movimentos sociais em um ato unificado nas ruas da capital maranhense, reforçando a mensagem de que a luta pelos direitos das mulheres é permanente e envolve toda a sociedade.
SERVIÇO
- Dia: 8 de maço (domingo)
- Horário: 9h
- Local: Largo do Carmo, no Centro, próximo à Feirinha São Luís.
[Assista na íntegra à entrevista de Neuzeli de Almeida Pinto, integrante do Fórum Maranhense de Mulheres, Silvia Leite, assistente social, e Rielda Alves, vinculada ao PSOL, no programa Dedo de Prosa.]