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“Jornalismo dos ricos”: debate questiona interesses econômicos da mídia de mercado na cobertura eleitoral

A influência do poder econômico sobre a imprensa e a concentração dos meios de comunicação colocam em debate o papel do jornalismo na defesa da democracia e do direito à informação. (Imagem: Magnific)

A atuação da grande imprensa durante as eleições presidenciais de 2026, especialmente o tratamento dado à candidatura de Flávio Bolsonaro (PL), foi alvo de críticas de jornalistas da Agência Tambor.

Para os profissionais, setores da mídia empresarial contribuíram para normalizar o discurso da extrema direita e privilegiaram interesses econômicos em detrimento de questões fundamentais para a população.

O fortalecimento do jornalismo independente e da comunicação popular foi apontado como necessário para enfrentar a desinformação e ampliar o direito à informação.

As avaliações foram apresentadas na terça-feira (27), durante o programa Dedo de Prosa, dois dias após a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Com 64,2 milhões de votos, Lula venceu Flávio Bolsonaro, que recebeu 59,8 milhões. Apesar da vitória do petista, os participantes alertaram que o resultado eleitoral não elimina a influência política da extrema direita nem os desafios impostos pela concentração dos meios de comunicação.

[Veja a entrevista ao final desta matéria.]

A grande mídia e a normalização da extrema direita

Para o jornalista Ed Wilson Araújo, a disputa presidencial expôs a força de interesses econômicos e políticos na produção e circulação das informações. Em sua avaliação, Lula enfrentou não apenas um adversário eleitoral, mas uma estrutura de comunicação que favoreceu o projeto econômico da direita.

“Essa vitória de Lula foi uma batalha. Nós temos uma guerra permanente contra as elites, contra o imperialismo”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa.

Ed Wilson argumentou que a mídia empresarial, mesmo sem demonstrar necessariamente simpatia pessoal pela família Bolsonaro, teria encontrado afinidades com sua agenda econômica, especialmente nas propostas de privatização e na defesa do protagonismo do mercado. Segundo o jornalista, essa convergência ajuda a explicar o tratamento dispensado às candidaturas e a resistência de grandes grupos de comunicação a políticas de inclusão social.

A jornalista Danielle Louise também questionou a cobertura eleitoral. Na sua avaliação, veículos tradicionais deram destaque a controvérsias envolvendo integrantes da família de Lula, enquanto deixaram de aprofundar o histórico político de Flávio Bolsonaro e os riscos que, segundo ela, sua candidatura representava. Danielle defendeu uma mudança na relação dos setores progressistas com os grandes conglomerados de comunicação. “Eu acho que a gente tem que defender ainda mais a mídia independente”, afirmou.

Emílio Azevedo aprofundou as críticas e citou nominalmente Globo, Folha, Estadão e Veja. Segundo ele, parte da cobertura do primeiro turno concentrou o debate político nas controvérsias envolvendo o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), enquanto questões como saúde, educação, fome e direitos trabalhistas ficaram em segundo plano. Os veículos mencionados não participaram do programa, e as críticas expressam a avaliação dos entrevistados sobre suas linhas editoriais.

Para Emílio, o problema ultrapassa a preferência por uma candidatura. Está relacionado à própria função social do jornalismo. O jornalista defendeu uma imprensa comprometida com a apuração dos fatos, mas também atenta às desigualdades, aos direitos humanos, à justiça climática e à diversidade cultural. Na avaliação dele, os interesses da classe trabalhadora precisam ganhar espaço no noticiário, em vez de permanecer subordinados às prioridades do mercado financeiro.

No Maranhão, a comunicação popular enfrenta desigualdades e silenciamento

O debate também destacou a necessidade de ampliar a presença do jornalismo independente no Maranhão, onde Lula recebeu 69,54% dos votos válidos no segundo turno, contra 30,46% de Flávio Bolsonaro. Para os participantes, a votação revela a importância de manter a discussão política para além das eleições, especialmente em um estado marcado por desigualdades sociais e conflitos territoriais.

Danielle Louise destacou que veículos locais têm condições de abordar questões frequentemente ausentes da agenda nacional, como disputas por terras indígenas e quilombolas, violações de direitos humanos e impactos ambientais de grandes empreendimentos. Na avaliação da jornalista, fortalecer iniciativas como a Agência Tambor, O Pedreirense, a TV Quilombo e as rádios comunitárias significa ampliar o acesso da população a informações diretamente relacionadas à sua realidade.

A vulnerabilidade desses veículos também esteve em discussão. Emílio mencionou o Tapajós de Fato, de Santarém (PA), que suspendeu a cobertura sistemática das eleições após ameaças e episódios de violência contra integrantes da equipe. O caso motivou uma manifestação de solidariedade da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj). No Maranhão, o jornal O Pedreirense relatou ter permanecido 75 dias com seu perfil suspenso no Instagram, situação que comprometeu a circulação de seu conteúdo.

Os episódios evidenciam obstáculos enfrentados por iniciativas de menor porte, que dependem das plataformas digitais para alcançar leitores e nem sempre dispõem dos recursos financeiros e jurídicos dos grandes grupos empresariais. Além das ameaças externas, a dependência das redes sociais coloca parte importante da comunicação independente sob regras de distribuição de conteúdo e moderação controladas por empresas privadas.

Democratizar a comunicação é distribuir poder

A participação popular na campanha presidencial foi apresentada como exemplo de que a comunicação não se limita aos grandes veículos ou às plataformas digitais. Ed Wilson lembrou a experiência da Rádio 13, iniciativa que utilizou uma caixa de som nas feiras de São Luís para levar mensagens políticas à população. Emílio também destacou as mobilizações estudantis, com cartazes, megafones e manifestações de rua, como formas de comunicação capazes de recolocar a educação e os direitos sociais no centro do debate.

Ao analisar essas experiências, Emílio defendeu que a democratização da comunicação precisa ir além do fortalecimento de alguns veículos independentes de maior alcance nacional. “A gente não quer uma nova Globo de esquerda, a gente quer pulverizar a comunicação, a gente quer fracionar o poder”, afirmou. Para ele, isso exige a presença de iniciativas jornalísticas comprometidas com a população em municípios de diferentes regiões do país, e não apenas nas capitais e nos grandes centros.

A jornalista Lívia Lima, que conduziu o debate, também chamou atenção para o papel das plataformas digitais na disseminação da desinformação. Segundo ela, a ausência de regras adequadas para o funcionamento dessas empresas amplia os desafios do jornalismo e torna indispensável discutir quem produz e distribui as informações, quais interesses influenciam sua circulação e quais grupos continuam sem acesso aos grandes espaços de comunicação.

Ao final, os participantes defenderam que a mobilização social e o trabalho do jornalismo independente não podem se restringir aos períodos eleitorais. Danielle ressaltou que a disputa por direitos continuará no próximo governo, diante de um Congresso de perfil conservador. A mensagem central do debate foi a de que a democracia depende não apenas do direito de votar, mas também de condições para que diferentes setores da sociedade produzam informação, participem do debate público e tenham suas vozes ouvidas.

[Assista o debate de Lívia Lima, Emilio Azevedo, Danielle Louise e Ed Wilson Araújo, jornalistas da Agência Tambor.]

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