Cemitério com centenas de sepulturas durante a pandemia de Covid-19, em registro de um dos períodos mais graves da crise sanitária no Brasil. No dia em que a imagem foi divulgada, o país contabilizava 2.504 mortes em 24 horas, chegando a 482.019 óbitos desde o início da pandemia. (Imagem: Michael Dantas/AFP/Getty Images) O que a experiência da Covid-19 nos ensinou? O advogado ambientalista e ex-conselheiro federal da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) Guilherme Zagallo faz um alerta sobre os riscos envolvidos nas escolhas políticas que serão feitas nas eleições presidenciais de 2026. (Veja o vídeo ao final desta matéria.)
Segundo Zagallo, decisões políticas agravaram a tragédia da Covid-19 no Brasil, e cerca de 500 mil mortes poderiam ter sido evitadas.
Mas, independentemente das situações de crise, as atitudes do governo Bolsonaro durante a pandemia revelam como decisões políticas podem se sobrepor à proteção da saúde. A experiência da Covid-19 expôs prioridades e uma relação com a ciência e com a saúde pública que merecem ser examinadas não apenas pelos resultados do passado, mas também pelo que representam para as escolhas do presente.
O alerta ganha relevância na reta final da eleição presidencial, especialmente após o debate de domingo (18), na Band, quando Flávio Bolsonaro (PL) reconheceu resultados negativos na área da saúde durante o governo do pai, mas afirmou que o ex-presidente “deu o seu melhor” diante da pandemia.
Que melhor foi esse?
Em vídeo, Zagallo relembra a atuação do governo de Jair Bolsonaro durante a crise sanitária e afirma: “500 mil vidas poderiam ter sido salvas se tivéssemos tido uma conduta diferente da pandemia”.
Segundo ele, embora o Brasil represente apenas 2,6% da população mundial, concentrou aproximadamente 10% das mortes por Covid-19. Isso significa que, se a mortalidade brasileira tivesse acompanhado a média mundial, o país teria registrado menos de 200 mil mortes, em vez das mais de 700 mil contabilizadas.
A estimativa apresentada por Zagallo encontra respaldo em análises feitas durante a pandemia. Em junho de 2021, o epidemiologista Pedro Hallal, da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), afirmou à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Pandemia que cerca de 400 mil das 507 mil mortes registradas até aquele momento poderiam ter sido evitadas caso o Brasil tivesse apresentado a mortalidade média mundial. O pesquisador destacou a importância das vacinas, do distanciamento social e das medidas de prevenção.
Embora essas comparações não permitam determinar exatamente quantas mortes poderiam ter sido evitadas, ajudam a dimensionar a tragédia e a compreender a importância das decisões tomadas pelo poder público.
O que esse passado revela sobre o presente?
O que aconteceu durante a Covid-19 não serve apenas para avaliar a resposta de um governo a uma emergência sanitária. Também permite questionar suas prioridades e sua relação com a ciência, com a prevenção de doenças e com a responsabilidade de garantir atendimento à população. Afinal, a saúde pública exige decisões todos os dias, não apenas quando o país enfrenta uma tragédia.
Campanhas de vacinação, acesso a medicamentos, prevenção de doenças e funcionamento do Sistema Único de Saúde (SUS) dependem de planejamento, investimento e decisões fundamentadas em evidências científicas. Quando um presidente desestimula medidas preventivas e promove tratamentos sem eficácia comprovada, como ocorreu no governo Bolsonaro, a discussão ultrapassa o enfrentamento de uma doença. Envolve a confiança da população nas autoridades responsáveis por proteger sua saúde.
A pandemia também deixou experiências que não cabem nas estatísticas. O desespero de famílias à procura de leitos, as mortes por falta de oxigênio, o medo de perder pessoas próximas e a impossibilidade de muitas despedidas revelam a dimensão humana da tragédia. Em momentos assim, decisões políticas deixam de ser discussões abstratas e passam a interferir diretamente nas possibilidades de sobrevivência.
Esse histórico oferece elementos concretos para examinar propostas, compreender compromissos e avaliar a importância atribuída à ciência e à saúde pública. É nesse contexto que a declaração de Flávio Bolsonaro, ao defender a atuação do pai durante a pandemia, ganha relevância para o debate político atual. O alerta de Zagallo, por sua vez, convida à reflexão sobre as consequências das escolhas políticas.

Atraso na vacinação e desrespeito às medidas sanitárias
Entre os episódios que ajudam a compreender esse histórico estão as decisões e os comportamentos do então presidente Jair Bolsonaro que, na avaliação de Zagallo, contribuíram para agravar a crise sanitária.
“Nós tivemos um governo federal que atrasou a compra de vacinas, um presidente da República que promovia aglomerações, era contra o uso de máscaras e ainda indicava um remédio sem qualquer eficácia para o tratamento da Covid-19”, denuncia.
As críticas encontram respaldo em episódios documentados pela CPI da Pandemia. Em depoimento ao Senado, representantes da farmacêutica Pfizer confirmaram que o governo brasileiro recebeu propostas para a compra de vacinas ainda em agosto de 2020, com previsão de entrega das primeiras doses naquele ano. O primeiro contrato com a empresa, entretanto, só foi assinado em março de 2021. O então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, atribuiu o impasse a cláusulas contratuais.
Outro ponto mencionado pelo advogado é a defesa de medicamentos sem eficácia comprovada. Jair Bolsonaro promoveu repetidamente o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina contra a Covid-19. Estudos científicos demonstraram que esses medicamentos não reduziam a mortalidade pela doença, conclusão que fundamentou as recomendações contrárias ao seu uso pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Memória das vítimas e responsabilidade política
Além das decisões sanitárias, Zagallo critica a postura do ex-presidente diante do sofrimento das vítimas e de suas famílias. “Esse mesmo presidente teve uma das condutas mais repugnantes da história do nosso país ao fazer piadas sobre a morte de pessoas sem oxigênio nos hospitais”, afirma.
A crítica faz referência a episódios em que Jair Bolsonaro imitou pessoas com dificuldade para respirar durante transmissões nas redes sociais, em março e maio de 2021. Nas ocasiões, ele atacava orientações do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta. Os gestos provocaram críticas por ocorrerem em meio à crise sanitária, quando milhares de brasileiros enfrentavam internações e mortes provocadas pela doença.
Diante desse histórico, a declaração de Flávio Bolsonaro de que o pai “deu o seu melhor” durante a pandemia recoloca em discussão as decisões tomadas pelo governo federal e suas consequências para a população. É justamente essa memória que Zagallo recupera em seu alerta, chamando atenção para a responsabilidade dos governantes e para os efeitos que suas decisões podem ter sobre a vida das pessoas.
O vídeo termina com uma pergunta direta: “Você deseja correr esse risco novamente com sua família?”