José Arteiro Muniz: “São Luís, historicamente conhecida como Atenas Brasileira, deveria ter uma das mais fortes e importantes feiras literárias do país.” (Imagem: @sebodoarteiro) Por José Arteiro Muniz*
Há pelo menos 20 anos venho insistindo em uma questão: São Luís precisa tratar sua Feira do Livro com a grandeza que sua história cultural exige.
Falo não apenas como observador, mas como alguém que participou desse processo desde o início. Eu, Milton Lira e outros livreiros criamos, à época, a ALEM — Associação dos Livreiros e Editores do Maranhão. Fui também seu primeiro vice-presidente.
A Feira do Livro de São Luís nasceu, portanto, de uma iniciativa dos próprios livreiros.
Neste ano chegamos à 19ª edição da FeliS. Enquanto isso, Porto Alegre já ultrapassou há muito a marca de 80 edições de sua tradicional feira. A comparação não serve apenas para contar números. Serve para mostrar o quanto continuidade, planejamento e visão de longo prazo fazem diferença.
São Luís, historicamente conhecida como Atenas Brasileira, deveria ter uma das mais fortes e importantes feiras literárias do país.
Quando os livreiros fizeram a feira acontecer
As primeiras edições mostraram o potencial que existia.
Naquele período, os próprios livreiros assumiram a infraestrutura da feira, seguindo um modelo semelhante ao que conhecíamos das grandes bienais. A resposta do público foi extraordinária.
O então prefeito Tadeu Palácio percebeu rapidamente a dimensão que o evento havia alcançado. A Prefeitura passou a investir em divulgação, e o sucesso foi retumbante.
Chegamos a reunir livreiros, grandes editoras brasileiras e representantes de editoras portuguesas e francesas.
A movimentação comercial também impressionava.
Há cerca de 20 anos, alguns livreiros chegaram a vender mais de R$ 100 mil durante a feira. É importante repetir: estamos falando de valores alcançados duas décadas atrás.
Isso demonstra que havia público, interesse, circulação de leitores e capacidade de transformar a feira em um grande acontecimento cultural e econômico.
O problema começou com a falta de planejamento
A feira acabou incorporada ao calendário municipal por meio de lei. Isso garantiu sua existência institucional, mas não resolveu um problema fundamental: a ausência de uma fonte permanente de recursos que garantisse sua realização com planejamento e antecedência.
Desde então, em muitos anos, sua realização virou uma incógnita.
Muda prefeito, muda gestão, muda formato, muda local e, muitas vezes, todo o processo praticamente recomeça do zero.
Uma feira dessa dimensão não pode ser organizada às pressas.
Não se constrói um grande evento literário semanas antes de sua abertura.
É necessário planejar com meses de antecedência, conversar com editoras, livreiros, escritores, escolas, universidades, produtores culturais e patrocinadores.
Uma feira não pode ter medo de crescer
Outro problema precisa ser enfrentado.
Existe, em alguns setores, uma visão excessivamente bairrista sobre a participação de livreiros e editoras de outros estados.
A ideia de que trazer grandes editoras ou livreiros de fora prejudicaria os comerciantes locais é, na minha avaliação, um erro.
Uma feira cresce exatamente quando aumenta sua diversidade.
Quanto mais editoras, livreiros, autores, lançamentos e novidades, maior será o interesse do público.
Quem ganha com isso é todo mundo: o livreiro local, o visitante, o escritor, o estudante e a própria cidade.
Proteger o mercado local não significa fechar as portas para quem vem de fora. Significa criar condições para que todos possam participar de forma equilibrada.
Uma feira pequena, sem novidades e sem intercâmbio acaba perdendo justamente aquilo que deveria ter de mais importante: capacidade de despertar curiosidade e atrair leitores.
Climatização é importante, mas não basta
Neste ano recebemos uma notícia importante: pela primeira vez em 19 edições, fala-se em climatização do espaço da feira.
Oxalá aconteça.
É uma reivindicação antiga e certamente representa um avanço.
Mas climatização, sozinha, não fará uma grande FeliS.
É preciso divulgação forte nas rádios, televisões, jornais, portais, redes sociais e demais meios de comunicação.
É necessário entrar nas escolas e universidades muito antes da abertura do evento.
Também deveria existir transporte organizado para estudantes e comunidades, com ônibus suficientes para facilitar o acesso de quem deseja participar.
Livro não pode ficar esperando o leitor aparecer.
É preciso levar o leitor até o livro.
São Luís merece uma feira à altura de sua história
A FeliS precisa voltar a sonhar grande.
Não podemos aceitar que uma cidade com a história literária de São Luís realize sua principal feira do livro apenas para cumprir uma obrigação de calendário.
A feira precisa movimentar a cidade.
Precisa lotar.
Precisa atrair visitantes.
Precisa vender livros.
Precisa criar leitores.
Precisa trazer grandes editoras, valorizar os livreiros locais, abrir espaço para os independentes, promover autores maranhenses e dialogar com a produção literária de outras regiões e países.
Uma Feira do Livro não é apenas um conjunto de estandes.
É cultura, educação, economia criativa, turismo, memória e formação de leitores.
São Luís tem escritores.
Tem leitores.
Tem livreiros.
Tem história.
Tem tradição.
O que precisamos é transformar tudo isso em planejamento, investimento e visão de futuro.
Depois de 19 edições, talvez tenha chegado o momento de perguntar:
que FeliS queremos para os próximos 20 anos?
Porque continuar realizando a feira apenas para dizer que ela aconteceu é muito pouco para uma cidade como São Luís.
*José Arteiro Muniz é Livreiro, em São Luís do Maranhão.