Para os povos de terreiro, rios, matas, ervas e outros elementos naturais integram práticas religiosas e modos de vida — por isso, a degradação ambiental também atinge diretamente a vivência da fé e a conexão espiritual com o território. (Imagem: Marcelo Morais | I Mostra Vozes Negras) Uma cartilha lançada em São Luís quer transformar lideranças religiosas e comunitárias em agentes de enfrentamento à desinformação climática. O material, intitulado “Nossa fé contra a desinformação climática”, apresenta orientações para reconhecer conteúdos falsos ou manipulados e propõe atividades que podem ser realizadas em terreiros, igrejas e outros espaços comunitários.
Produzida pela GreenFaith, organização internacional voltada à mobilização de comunidades religiosas em torno da justiça climática, a publicação foi apresentada no último dia 15 de agosto, durante o encontro “O Rufar dos Tambores contra a Desinformação Climática”, realizado no Terreiro São Jorge Tumajamacê, na região do Maracanã, em São Luís.
Para Natália Chaves, estudante de Serviço Social, ativista ambiental e articuladora comunitária, a circulação de informações falsas sobre o clima não interfere apenas na compreensão dos problemas ambientais. “A desinformação […] acaba agravando o racismo ambiental, dificulta algumas ações coletivas, fortalece alguns preconceitos […] e enfraquece também as políticas ambientais”, disse ao programa Dedo de Prosa.
Informação como ferramenta de defesa dos territórios
Segundo Natália, a cartilha surgiu a partir de um círculo de formação promovido pela GreenFaith. O Terreiro São Jorge Tumajamacê integra a articulação da organização no Maranhão, e o material foi elaborado para funcionar como instrumento de formação principalmente para lideranças religiosas e comunitárias.
A publicação reúne representantes de diferentes tradições religiosas, entre elas religiões de matriz africana, igrejas evangélicas e comunidades católicas. Além de explicar o que é desinformação climática, apresenta propostas de oficinas e discute como conteúdos enganosos circulam rapidamente pelas redes sociais, aplicativos de mensagens e outros meios de comunicação.
A relação entre fé e preservação ambiental aparece como um dos eixos da cartilha. Natália destaca que, para comunidades tradicionais de terreiro, a degradação dos rios, das matas e de outros recursos naturais também interfere diretamente nas práticas religiosas. “As nossas ritualísticas se dão muito através da natureza. A gente precisa da natureza para nos manter de pé”, afirmou.
Segundo ela, a perda de rios preservados, ervas e outros elementos naturais ultrapassa a dimensão ambiental. “Se a gente não tem mais um rio saudável para banhar, isso atinge a gente diretamente, atinge a fé diretamente”, explicou.
Desinformação e disputa sobre o modelo de desenvolvimento
Na avaliação da ativista, a discussão ganha importância particular no Maranhão por estar ligada às disputas em torno da ocupação dos territórios e da expansão de grandes empreendimentos. Durante a entrevista, ela citou a ampliação da infraestrutura portuária de São Luís e os conflitos envolvendo comunidades tradicionais como exemplos de situações em que diferentes discursos sobre desenvolvimento e preservação ambiental entram em choque.
Natália também relacionou o problema à luta pela Reserva Extrativista de Tauá-Mirim, defendida há anos por comunidades da zona rural de São Luís. Segundo ela, movimentos que questionam a expansão empresarial sobre áreas preservadas são, por vezes, apresentados como adversários do desenvolvimento. “A gente tem essa dificuldade também de combater essa desinformação de um falso progresso”, afirmou.
Para a ativista, o debate não pode desconsiderar atividades que sustentam comunidades e também abastecem a população da Ilha, como pesca, extrativismo e agricultura familiar. Ela argumenta que a destruição de nascentes, manguezais e áreas produtivas transfere os custos ambientais principalmente para populações que dependem diretamente desses territórios. As empresas e instituições mencionadas de forma geral durante a entrevista não participaram do programa para apresentar suas posições.
Redes sociais ampliam alcance — e também o risco
Outro desafio apontado por Natália é a dificuldade de mobilizar parte da população para discutir mudanças climáticas. Segundo ela, encontros sobre meio ambiente ainda enfrentam resistência inclusive dentro de comunidades religiosas. Ao mesmo tempo, a velocidade das redes sociais aumenta a capacidade de disseminação de conteúdos enganosos.
“Todos os dias a gente vê áudios, a gente vê vídeos no WhatsApp, e é um áudio que sai agora de tarde e já tomou uma proporção que tu não consegue às vezes mais nem reverter”, afirmou. Para ela, ampliar o acesso à informação confiável é fundamental para que as próprias comunidades consigam reconhecer conteúdos manipulados e participar das decisões que afetam seus territórios.
A cartilha está disponível em versão digital por meio dos canais da GreenFaith. Segundo Natália, também existem exemplares impressos que podem ser destinados a instituições e comunidades interessadas em desenvolver atividades de formação.
Ao final da entrevista, a ativista resumiu o debate a partir de uma pergunta sobre quem suporta os efeitos da crise climática. “Quem é que paga a conta da crise climática? Sempre são os territórios […] onde o progresso não alcança, mas acaba atingindo de forma ruim. É o pessoal que vive da zona rural, é quem vive de pescaria, é quem precisa da terra para se manter”, afirmou.
Veja a entrevista de Natália Chaves ao programa Dedo de Prosa.]