Para os povos de terreiro, a defesa dos territórios vai além da pauta ambiental: representa a continuidade dos saberes ancestrais, das práticas religiosas e da memória afro-brasileira. (imagem: Ilê Axé Alagbede Olodumare | @luizafc) Povos de terreiro de Paço do Lumiar transformaram o Encontro do Povo de Axé em um espaço de articulação política e defesa da ancestralidade.
Durante a atividade promovida pelo Comitê de Cultura do Maranhão em parceria com o Ilê Axé Alagbede Olodumare, lideranças alertaram para os impactos da expansão urbana desordenada sobre territórios tradicionais e cobraram políticas públicas voltadas à preservação ambiental, à liberdade religiosa e ao reconhecimento das comunidades de matriz africana.
O encontro reuniu mães e pais de santo, juventudes, agentes culturais e lideranças comunitárias para discutir os desafios enfrentados pelos povos de axé no município. Segundo os participantes, Paço do Lumiar possui cerca de 60 terreiros e mais de 20 mil pessoas ligadas aos povos de terreiro, dimensão que reforça a importância cultural, social e religiosa dessas comunidades na cidade.
As atividades aconteceram no dia 15 de maio e entre os principais pontos debatidos estiveram a retirada de áreas verdes próximas aos terreiros, a ausência de diálogo com o poder público e o avanço de projetos urbanos sem escuta das comunidades tradicionais.
As discussões também reforçaram a relação entre espiritualidade, território e meio ambiente. Para os participantes, a preservação das matas não representa apenas uma pauta ambiental, mas uma condição essencial para a continuidade dos saberes ancestrais, das práticas religiosas e da memória afro-brasileira.
A coordenadora geral do Comitê de Cultura do Maranhão, Nadir Cruz, destacou que o fortalecimento dos povos de terreiro também significa proteger a cultura popular e enfrentar violências históricas. Segundo ela, o encontro reafirmou a importância da organização comunitária, da comunicação popular e das redes de solidariedade entre os povos de axé.
Outro tema que ganhou destaque foi a proposta de criação do Parque Ambiental dos Orixás, apresentada como símbolo de reparação histórica e valorização da ancestralidade afro-brasileira. A iniciativa pretende unir preservação ambiental, educação e memória em um espaço voltado ao fortalecimento das tradições religiosas.
As lideranças também defenderam a criação de uma comissão permanente de articulação dos povos de terreiro, o fortalecimento da comunicação comunitária, políticas de combate ao racismo religioso e ações de proteção ambiental. Entre as propostas debatidas estão ainda projetos de reflorestamento urbano, como as chamadas “Florestas de Bolso”, além de iniciativas de letramento ancestral voltadas para crianças e jovens.
